Carta de Bill a Jung

Carta de Bill (cofundador do A.A.) a Jung

 

Carta de Bill W. a Jung – 23, Janeiro de 1961.

William Griffith Wilson (Estados Unidos, 26 de novembro de 1895/ 24 de janeiro de 1971), também conhecido por Bill Wilson ou Bill W. – nome pelo qual ficou conhecido no mundo inteiro – foi o cofundador do grupo de mútua ajuda Alcoólicos Anônimos.

Em 1938 criou a Fundação Alcoólicos e um ano depois publicou o livro Alcoólicos Anônimos, manual de base para quem quisesse deixar a bebida, incluindo na obra os 12 passos para esse efeito.

Aqui está um capitulo de vital importância na história do início do A.A.

Uma carta de Bill Wilson a Jung, e sua resposta.

 

Billl-W

Caro Dr. Jung,

Esta carta de grande apreciação era devida a longo tempo. Permita que me apresente, sou Bill W., um co-fundador da Sociedade Alcoólicos Anonimos

Ainda que o Sr, certamente ,tenha ouvido de nós, eu duvido se o Sr. esteja consciente de que uma certa conversa que teve com um de seus pacientes, o Sr. Rowland H., no início dos anos 30, teve um papel critico na fundação de nossa Irmandade. Apesar de Rowland ter falecido a bom tempo, as recordações de sua experiência marcante enquanto em tratamento consigo tornou-se parte da história de Alcoólicos Anônimos . Nossa lembrança das afirmações de Rowland H. sobre sua experiência consigo foi assim:

Tendo esgotado outros meios de recuperação de seu alcoolismo, cerca de 1931 ele tornou seu paciente. Eu acredito que permaneceu sob seus cuidados por talvez um ano. Sua admiração pelo senhor era sem medida, e ele o deixou com um sentimento de muita confiança.

Para sua grande consternação, logo ele recaiu. Certo de que o senhor era sua corte do “último recurso” ele retornou a seus cuidados. Então seguiu-se a conversa com o senhor que tornou-se o primeiro elo de uma cadeia de eventos que conduziu à fundação de Alcoólicos Anônimos.

Minha lembrança do que me relatou sobre essa conversa é isso: primeiro de tudo, o Sr. disse francamente a ele de sua desesperança, quanto a qualquer tratamento médico ou psiquiátrico que pudesse ser útil. Essa sua afirmação cândida e humilde foi sem sombra de duvida a primeira pedra da base sobre a qual nossa Sociedade tem sido levantada.

Vindo do senhor a quem ele admira e confia tanto, o impacto sobre ele foi imenso. Então, quando ele lhe perguntou se havia alguma outra esperança, o Sr, disse a ele que podia haver, uma vez que ele poderia ser o sujeito de uma experiência espiritual ou religiosa – em resumo, uma conversão genuína. O Sr. Apontou-lhe como tal experiência, se acontecesse, poderia remotiva-lo quando nada mais poderia fazê-lo. Mas o Sr, pediu cuidado, pois apesar de que tais experiências algumas vezes trouxeram sobriedade a alcoólatras, elas são relativamente raras. O Sr, recomendou que ele se colocasse em uma atmosfera religiosa e esperasse pelo melhor. Isso foi, eu  creio a substância de seu conselho.

Logo após isso, o Sr. H ingressou nos Grupos Oxford, um movimento evangélico então no pico de seu sucesso na Europa, e que sem duvidas o Sr, é familiar. O Sr. se lembrará sua grande ênfase nos princípios de auto avaliação, confissão, restituição, e dar-se em serviço a outros. Eles enfatizam fortemente a meditação e a oração.  Nesse ambiente, Rowland H. passou por uma experiência de conversão que o livrou até agora de sua compulsão por beber.

Retornando a New York ele tornou-se muito ativo com os “G.O.”ali, e liderado por um pastor episcopal, Dr. Samuel Shoemaker.  Dr. Shoemaker foi um dos fundadores daquele movimento, e sua forte personalidade transmitia imensa sinceridade e convicção.

Por esse tempo (1932-34) os Grupos Oxford já tinham um número de alcoólatras sóbrios, e Rowland, sentindo que ele podia identificar-se especialmente com esses sofredores, apresentou-se a si mesmo para ajudar a estabilizar outros. Um desses por acaso era um meu antigo colega de escola, Edwin T. (“Ebby”). Ele estava sob ameaça de prisão , mas o Sr. H e outro ex-alcoólatra membro dos “O.G.” procuraram sua liberdade condicional e o ajudaram a conseguir sua sobriedade.

Enquanto isso, eu segui o curso do alcoolismo e eu mesmo estava sob ameaça de prisão. Felizmente eu fiquei sob os cuidados de um medico, o Dr. William D. Silkworth – que era maravilhosamente capaz de compreender alcoólatras. Mas assim como o Sr. abriu mão de Rowland, ele abriu mão de mim.

Era sua teoria que alcoolismo tinha dois componentes – uma obsessão que compelia o sofredor a beber contra sua vontade e desejo, e algum tipo de dificuldade metabólica que ele então chamou de uma alergia. A compulsão garantia que o beber do alcoólatra continuaria adiante, e a alergia tornaria certo que o sofredor iria deteriorar-se finalmente, tornar-se-ia insano ou morreria. Apesar de eu ser um dos poucos que ele pensava que era possível ajudar, ele finalmente foi obrigado a me falar de minha desesperança; eu, também,  teria que ser trancafiado. Para mim, isso era um golpe devastador. Assim como Rowland foi preparado para sua experiência de conversão pelo Sr. , assim meu maravilhoso amigo, Dr. Silkworth, preparou-me.

Ouvindo de minha situação, meu amigo Edwin T. veio ver-me em minha casa, onde eu estava bebendo. Era, então novembro de 1934. A muito tempo tinha  marcado meu amigo Edwin como um caso sem esperança. No entanto ali estava ele em um estado bem evidente de “livramento” que poderia sem dúvidas ser creditado por sua mera associação de pouco tempo com os Grupos Oxford. No entanto esse obvio estado de livramento, tão distinto de sua depressão usual, era tremendamente convincente. Porque ele era um parceiro de sofrimento, ele podia inquestionavelmente comunicar-se comigo em grande profundidade. Eu soube no ato que deveria encontrar uma experiência como a dele, ou morreria.

Voltei novamente aos cuidados do Dr. Silkworth onde eu pude novamente voltar a estar sóbrio e conseguir uma visão mais clara da experiência de livramento de meu amigo, e da aproximação de Rowland H a ele.

Desintoxicado novamente do álcool, senti-me terrivelmente deprimido. Isso parecia ser causado pela minha inabilidade de conseguir a menor fé. Edwin T visitou-me novamente e repetiu as fórmulas simples dos Grupos Oxford. Assim que ele saiu eu fiquei ainda mais deprimido. Em grande desespero eu gritei, “Se existir um Deus, que ele se mostre a si mesmo.” Imediatamente veio uma iluminação de grande impacto e dimensão, algo que tentei descrever no livro “Alcoólicos Anônimos” e em “AA Alcança a Maioridade” , textos Básicos que estou lhe enviando. Meu livramento da obsessão pelo álcool foi imediato. Eu sabia que era um homem livre no ato. Logo depois de minha experiência, meu amigo Edwin veio ao hospital trazendo-me uma copia de William James “As Variedades da Experiência Religiosa”. Esse livro me deu a percepção de que a maioridade das experiências de conversão, seja qual for sua variedade, tem um denominador comum do colapso do ego em profundidade. A pessoa enfrenta um dilema impossível. Em meu caso o dilema foi criado pelo meu beber compulsivo e o profundo sentimento de desesperança foi grandemente aprofundado pelo meu médico. E foi mais aprofundado ainda por meu amigo alcoólatra quando me contou de seu veredicto de desesperança a respeito de Rowland H.

Na seqüência de minha experiência espiritual veio uma visão de uma sociedade de alcoólatras, cada um identificando-se com e transmitindo sua experiência ao próximo – ao estilo de corrente. Se cada sofredor levasse a notícia da desesperança científica do alcoolismo a cada novo interessado, ele poderia se capaz de fazer todo recém chegado aberto a uma experiência espiritual transformadora. Esse conceito provou ser o fundamento de tal sucesso como Alcoólicos Anônimos desde então alcançou. Isso tornou as experiências de conversão – quase que todas as variedades descritas por James – disponíveis quase que em uma base por atacado. Nossas recuperações sustentadas pelo último quarto de século somam cerca de 300.000. Na America e pelo mundo há hoje 8.000 grupos.

Assim ao Sr, ao Dr. Shoemaker dos Grupos Oxford, a William James, e ao meu próprio medico Dr. Silkworth, nós de AA devemos essa tremenda benfeitoria. Como o Sr, agora verá com clareza, essa surpreendente cadeia de eventos na realidade começou muito antes em seu consultório, e está diretamente baseada em sua própria humildade e profunda percepção.

Muitos AAs atentos estudam seus escritos. Por que é nossa convicção de que o homem é algo mais que intelecto, emoção, e de dois dólares de medicação, o Sr se tornou encantador para nós.

Como nossa Sociedade cresceu, desenvolveu suas Tradições para unidade e estruturou seu funcionamento será visto nos textos e material em panfletos que estou lhe enviando.

O Sr, também irá interessar-se em saber que somado à “experiência espiritual”, muitos AAs descrevem uma grande variedade de fenômenos psíquicos, sendo considerável seu peso cumulativo. Outros membros tem – seguindo-se a sua recuperação em AA –  se beneficiado muito por seus médicos. Uns poucos tem se intrigado pelo “I Ching” e sua notável introdução àquele trabalho.

Por favor, esteja certo de que seu lugar na afeição e na história da irmandade é como nenhum outro.

Gratamente seu

William G. W.

Co-fundador de Alcoólicos Anônimos.

 

RESPOSTA DE JUNG. 30, Janeiro de 1961.

 

Jung1

Caro Sr. Wilson

Sua carta foi muito bem vinda realmente,

Não tinha mais notícias de Roland H., e frequentemente imaginava qual seria seu destino.

Nossa conversa que ele adequadamente reportou ao Sr, tem um aspecto do qual ele não soube. A razão pela qual não pude lhe dizer tudo era que naqueles dias eu estava excessivamente cuidadoso com o que dizia. Descobri que fui mal entendido de todos os modos possíveis. Por isso estive tão cuidadoso quando falei a Roland H. Mas o que eu realmente pensei sobre isso foi o resultado de muitas experiências com homens desse tipo.

Sua avidez por álcool era o equivalente a um nível baixo de sede de nosso ser por completude, expresso em linguagem medieval: a união com Deus.

Como alguém pode formular tal insight em uma linguagem que não seja mal entendida por outros.

A única e legítima forma de tal experiência é, que isso acontece a você em realidade e isso só pode acontecer a você quando você caminha numa trilha que o leva a uma compreensão mais alta. Você pode ser conduzido àquele alvo por um ato de graça ou através de um contacto com amigos ou através de uma alta educação da mente além dos confins do mero racionalismo. Eu vejo de sua carta que Roland H. escolheu  o segundo caminho, que é, sob as circunstâncias, obviamente o melhor.

Estou fortemente convencido de que o princípio do mal prevalecente neste mundo, conduz a necessidade espiritual não reconhecida à perdição, se isso não for contraposto ou por um insight religioso real ou pelo muro protetor da comunidade humana. Uma pessoa comum, não protegido por uma ação vinda de cima e isolada em sociedade não pode resistir ao poder do mal, que é chamado muito adequadamente de Diabo. Mas o uso dessas palavras levantam tantos erros que alguém deve manter-se longe delas tanto quanto possível.

Essas foram as razões porque eu não puder dar uma explanação completa e suficiente a Roland H. mas estou arriscando-a com você porque concluo de sua muito decente e honesta carta, que você adquiriu um  ponto de vista acima das platitudes enganosas que ouvimos usualmente quanto ao alcoolismo.

Veja, Álcool em Latim é “spiritus” e usamos a mesma palavra para a mais alta experiência religiosa assim como para o mais depravante veneno.

A fórmula auxiliadora portanto é : spiritus contra spiritum.

Agradecendo-lhe novamente sua gentil carta, eu permaneço seu sinceramente,

Carl Gustav Jüng

 

– Veja também: